Mostrar mensagens com a etiqueta no teu deserto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta no teu deserto. Mostrar todas as mensagens

2 de julho de 2010

Da solidão

Todos têm terror do silêncio e da solidão e vivem a bombardear-se de telefonemas, mensagens escritas, mails e contactos no Facebook e nas redes sociais da Net, onde se oferecem como amigos a quem nunca viram na vida. Em vez do silêncio, falam sem cessar; em vez de se encontrarem, contactam-se, para não perder tempo; em vez de se descobrirem, expõem-se logo por inteiro: fotografias deles e dos filhos, das férias na neve e das festas de amigos em casa, a biografia das suas vidas, com amores antigos e actuais. E todos são bonitos, jovens, divertidos, “leves”, disponíveis, sensíveis e interessantes. E por isso é que vivem esta vida: porque, muito embora julguem poder ter o mundo aos pés, não aguentam nem um dia de solidão.

No Teu Deserto
Miguel Sousa Tavares

27 de junho de 2010

Poupar palavras...

"Ficam calados porque já não têm mais nada para dizer." E fiquei a pensar no que me tinhas dito antes, sobre os sahraoui: "Como não têm nada, absolutamente nada, poupam tudo. Poupam a água, a comida, poupam as energias viajando de noite para evitar o calor. Até poupam nas palavras."
- Mas tu não poupas nas palavras: tu escreves. [...]
- Escrever não é falar.
- Não? Qual é a diferença?
- É exactamente o oposto. Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares de mais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer.

No Teu Deserto
Miguel Sousa Tavares

23 de junho de 2010

Tus fotografias...

Quando guardam para sempre um instante que nunca se repetirá, as fotografias não mentem - esse instante existiu mesmo. Porém, a mentira consiste em pensar que esse instante é eterno, que dois amantes felizes e abraçados numa fotografia ficaram para sempre felizes e abraçados. É por isso que não gosto de olhar para fotografias antigas: se alguma coisa elas reflectem, não é a felicidade, mas sim a traição - quando mais não seja, a traição do tempo, a traição daquele mesmo instante em que ali ficámos aprisionados no tempo. Suspensos e felizes, como se a felicidade se pudesse suspender carregando no botão "pausa" no filme da vida.

A coisa mais difícil e mais bonita de partilhar entre duas pessoas é o silêncio.

No Teu Deserto
Miguel Sousa Tavares